O PROFETA OSEIAS E O AMOR

Machado de Assis

23/07/2017 - Se estivesse vivo, o maior escritor brasileiro completaria 178 anos em junho. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro que, na época, contava com cerca de 300 mil habitantes. Mais do que um hábil autor, Machado de Assis é exemplo de uma pessoa que deu a volta por cima. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, não realizou seus estudos regulares. Além das condições sociais, ele precisou enfrentar adversidades de ordem fisiológica, tendo em vista que era mulato, gago e epilético. Porém, um dos fatos que mais chama a atenção em sua biografia é o amor vivenciado em seu matrimônio. Em 1869, casou-se com Carolina Xavier de Novais, com quem passou quase a vida inteira. Ela era portuguesa e quatro anos mais velha do que ele. O casal não teve filhos. Carolina faleceu em 1904, com 69 anos de idade. Devido à morte da esposa, Machado foi tomado por uma grande tristeza e saudade. Conta-se que ele manteve a casa do mesmo jeito que era quando ela estava viva. E fazia as refeições sempre com dois pratos à mesa. O escritor morreu em 1908, curiosamente também com 69 anos. Do ponto de vista literário, Machado de Assis é a mais proeminente figura do Realismo escola literária caracterizada pelo racionalismo e por uma análise descritiva dos problemas da vida. Uma das marcas do estilo de Machado é a ironia, entrecortada por um humor velado, como pode ser conferido em ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, publicado inicialmente em 1881. Ele consegue perscrutar a hipocrisia da elite carioca e, assim, adentra nos porões da existência humana, abordando assuntos intrínsecos a todos os homens. Observando a vida e o legado do escritor, é possível fazer uma relação com um dos profetas menores do Antigo Testamento. No oitavo século antes de Cristo, o profeta Oseias apontava a hipocrisia do povo de Israel, que estava em declínio moral e espiritual. Ao contrário da sutileza dos textos machadianos, o livro bíblico apresenta um tom objetivo, em consonância com o fator profético da obra. Assim como Machado de Assis amou Carolina intensamente, o profeta Oseias amou sua esposa, Gômer, de forma extraordinária. Tanto é que teólogos como Eugene Peterson chamam-no de 'profeta do amor'. Como é de amplo conhecimento, Oseias tomou sua esposa de um ambiente de imoralidade e tornou-a a mãe de seus filhos. A relação de ambos é considerada uma metáfora da relação de Deus com Israel. Da mesma forma que Gômer traiu o profeta, o povo de Deus traiu o Senhor. É impressionante, ainda, como esta situação pode ser aplicada aos dias atuais, sobretudo no contexto brasileiro. A máscara da hipocrisia esconde a face machucada de uma sociedade doente. As chagas de um povo massacrado pelo pecado manifestado em suas mais variadas vertentes gera nódoas irreversíveis, mas ocultadas por falsas liberdades. Envolvida em uma redoma de aparente prosperidade, a Igreja envereda pela infidelidade. Diferentemente do que houve nos tempos do Velho Testamento, carecemos de vozes proféticas que se levantem, denunciando o pecado pelo seu nome, mas também ressaltando que o anseio do Senhor é salvar, não condenar. Afinal de contas, como Oseias não se envergonhou de mostrar seu amor pela esposa, não podemos esquecer que Deus amou o mundo e deu Seu único filho para que, ao crer nEle, todos tenham vida plena e eterna. Para que aconteça uma verdadeira transformação no Brasil atual, talvez seja necessário que surjam 'Oseias modernos', emoldurando com amor divino a narrativa do tempo presente. Convém, então, orarmos com o mesmo sentimento de Machado de Assis, ao escrever o poema 'Fé': No turvo mar da vida, Onde aos parcéis do crime a alma naufraga, A derradeira bússola nos seja, Senhor, tua palavra.


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